O apuramento do Sudão para a fase final da Taça das Nações Africanas foi um autêntico milagre. Sem campeonato e obrigado a fazer os jogos caseiros noutro país, longe dos seus adeptos, a seleção comandada pelo ganês Kwesi Appiah logrou passar aos oitavos de final da prova, que decorre em Marrocos.
No dia 31 de dezembro, irá tentar a segunda vitória na fase de grupos, diante do Burquina Faso, depois de vencer a Guiné Equatorial e perder com a Argélia.
A guerra civil que assola o Sudão desde 2023 está destruir todos os sectores do país. John Robia Mano, um dos avançados que está a representar o Sudão na Taça das Nações Africanas, contou à BBC Sport como o seu melhor amigo, Medo, foi fuzilado por militares quando tentava arranjar documentos para fugir à guerra civil.
“Nem sequer lhe deram uma hipótese. Dispararam mais de 20 ou 25 vezes contra ele. Um dos nossos amigos de infância também estava com eles, mas não pôde dizer nada. Então, viu apenas o nosso amigo a morrer em frente aos seus olhos”, contou o jogador, de 24 anos, à BBC.
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Medo tentava fugir para os Egito. Voltou à casa para buscar alguns documentos, mas quando chegou, deu de caras com elementos do grupo paramilitar Forças de Suporte Rápido (RSF)
“Acho que eles se esqueceram de alguns certificados. Eram muito importantes para a sua família e ele teve de voltar. Voltou a sua casa e levou tudo. Foi apanhado. Eles disseram: ‘Estás a trabalhar com o exército?’ Ele só queria explicar-se, mas eles começaram a disparar”, recorda.
O próprio John Robia Mano já sentiu na pele o medo instalado no país, pouco antes de fugir para a Líbia onde joga no Al Akhdar: “Os rebeldes costumavam parar-nos na estrada e gozavam conosco. Diziam coisas como ‘Tu jogas pelo Al Hilal, o que é o Al Hilal? Eu torço pelo Al Merrikh. Posso matar-te agora mesmo e ninguém me vai questionar’. Não consigo esquecer esta história até que morra”.
John Robia Mano sabe que o futebol pode ajudar um pouco os que ficaram a sofrer no Sudão.
“Não temos uma liga, não temos nada, mas não podemos queixar-nos, porque as pessoas no meu país não podem comer, não têm comida”, disse, à BBC Sport.
Desde o início do conflito entre o exército do Sudão e o grupo paramilitar RSF, mais de 150 mil pessoas já morreram e mais 12 milhões de pessoas fugiram das suas casas.
Os estádios de futebol foram destruídos, os principais clubes do país, o Al Hilal e Al Merrikh, foram obrigados a competir no campeonato do Ruanda.























